Sobre a Semana de Moda em Londres

Sobre a Semana de Moda em Londres

Nesta temporada, a Semana da Moda de Londres foi palco de um confronto estético entre dois campos opostos: o sagrado e o profano.

No lado sagrado, foi possível assistir a desfiles elegantes, como os de Roksanda, Erdem e Richard Quinn.

 

Simone Rocha – primavera-verão 2020 – Moda Feminina – Londres – © PixelFormula

 

No campo do profano, as coleções mesclavam tradição pagã e decadência arty, de Simone Rocha – muito inspirada pelos ritos irlandeses antigos – a Steve O Smith.

Na capital britânica, a sombra do Brexit originava uma atmosfera prejudicial – poucas pessoas ousavam pronunciar a palavra maldita. Cuidado com quem se aventura num pub a dar sua opinião sobre Boris Johnson: os ânimos aquecem rapidamente quando o assunto é esse.

Mas, alguns criadores correram mesmo assim o risco de falar sobre política. Um designer irlandês optou por abordar esta polêmica questão. O soberbo desfile de Richard Malone incluiu brilhantes ternos com costuras expostas, usados com botas de pirata, surpreendentes vestidos de seda com franjas e casacos de militar minimalistas, todos num elenco de modelos multiétnico, algumas das quais usavam hijabs.

 

Erdem – primavera-verão 2020 – Moda Feminina- Londres – © PixelFormula

 

Sob um estrondo de aplausos, o designer cumprimentou o seu público, ostentando uma t-shirt azul onde se lia simplesmente “F ** k Boris”.

Embora as preocupações com a imigração estivessem no centro dos argumentos a favor do Brexit, os desfiles londrinos estiveram repletos de modelos com véus. Inclusive na Burberry, provavelmente a marca mais icônica do Reino Unido.

Ironicamente, o Brexit poderá levar à dissolução definitiva do Reino Unido. Segundo pesquisas recentes, uma certa proporção de eleitores na Irlanda do Norte, ansiosos face à ideia de deixar a União Europeia, seria agora a favor de uma Irlanda unida. Além disso, três criadores oriundos da ilha impressionaram particularmente o público londrino: Richard Malone, Simone Rocha e Jonathan Anderson.

Segunda-feira, o dia mais importante da semana londrina, começou com uma meia hora cheia de graça proporcionada por Roksanda na Serpentine Gallery, no Hyde Park. As modelos desfilaram sob o efêmero pavilhão criado este ano por Junya Ishigami – um telhado em ardósia espetacular, que emerge do chão e ondula como uma cobra em direção ao edifício principal da galeria.

 

Richard Malone – primavera-verão 2020 – Moda Feminina- Londres – © PixelFormula

 

Roksanda é provavelmente uma das principais razões parra assistir à fashion week de Londres. Em apenas algumas temporadas, a criadora conseguiu fidelizar um público exigente, encantado pela sua maturidade e pelo refinamento das suas coleções.

As suas primeiras silhuetas colocaram o terno no centro das atenções. Roupas folgadas e confortáveis, em cetim mate ou jersey cinzento, casacos e túnicas de chita – perfeitos para enfrentar o clima sombrio que escurece o céu de Londres. Os tons brancos e cinzentos claros escolhidos por Roksanda combinavam com as nuvens e com a música de Joni Mitchell, Both Sides Now, e os seus “ice cream castles in the air” (“castelos de gelado no ar”).

Depois, vestidos fluidos cobertos de folhos, vestidos de noite fantásticos, cortados num estampado abstrato ultradinâmico, em jeito de um esplêndido graffiti. Um desfile confiante, orquestrado pela criadora mais sensível de Londres.

A atmosfera romântica continuou na Erdem, que apresentou um desfile dedicado a Tina Modotti, atriz italiana, estrela de cinema de Hollywood do cinema mudo, depois fotógrafa e ativista revolucionária. Mas, em vez dos macacões masculinos que usava com mais frequência, a Erdem propôs um vestido vitoriano experimental, salpicado de referências militares, usado com um chapéu de camponês mexicano. Tina Modotti, que morreu misteriosamente depois de deixar a casa de Pablo Neruda em 1942, certamente adoraria o desfile, realizado de maneira encantadora no meio de um beco arborizado, num parque no bairro de Holborn.

 

Roksanda – primavera-verão 2020 – Moda Feminina- Londres – © PixelFormula

 

A semana culminou no grande desfile-espetáculo de Richard Quinn, que convidou uma orquestra de 40 músicos e um coro de 80 cantores, de pé na varanda de ferro forjado de um obscuro salão de baile eduardiano no colorido bairro de Tower Hamlets.

Richard Quinn, o primeiro vencedor do prêmio Queen Elizabeth II Award for Design, tem um conhecimento enciclopédico da história da moda. O estilista apresentou toda uma série de vestidos de noite exóticos, perfeitos para uma infinidade de passadeiras vermelhas – enquanto os modernizava combinando-os com botas pretas de látex. Embora certas roupas fossem realmente sublimes, o peso da história talvez estivesse demasiado evidente em toda a coleção.

Richard Quinn tem provavelmente mais do que um truque na manga, mas ainda não sabemos o caminho que vai seguir: o de um historiador conceitual da moda – uma versão britânica de Viktor & Rolf ou Jeremy Scott – ou a de um designer verdadeiramente influente, como Dries Van Noten ou Dolce & Gabbana.

 

Richard Quinn – primavera-verão 2020 – Moda Feminina- Londres – © PixelFormula

 

Como sempre, os jornalistas adoram descobrir talentos em Londres, como Steve O Smith. Este último apresentou a sua coleção, batizada de “Garden Path” (Caminho do Jardim) no Sanderson Hotel – uma declaração de moda excêntrica, imaginada por um designer que devemos acompanhar nas próximas temporadas.

Este anglo-americano nascido em Wimbledon formou-se na prestigiada Rhode Island School of Design (RISD), em Nova Inglaterra.

As mulheres de Steve O Smith: debutantes elegantes, com um toque de originalidade. Entre as modelos, muitas ex-colegas do criador deslocaram-se a Londres para uma “reunião de turma” especial. Lembraremos especialmente os belos vestidos de baile retorcidos e com folhos, ou estampados com rosas gigantes pelo artista Benjamin Langford.

“Como uma sexta à noite que corre mal”, brincou o estilista após o desfile. Um bom resumo do ambiente pré-Brexit que atualmente se vive em Londres.

Grande abraço e até breve!

Fonte: Portal Fashion Network/Texto de Godfrey Deeny – setembro/2019

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